«NÃO NASCEMOS PARA SER ESCRAVOS»

O Papa Leão XIV apelou hoje, em Saurimo, no Leste de Angola, à fé em Cristo, alertando que “quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos”. Terá o dono do reino, o MPLA há 50 anos, entendido a mensagem, até mesmo quando o Santo Padre disse “que não nascemos escravos nem da corrupção da carne, nem da corrupção da alma: toda a forma de opressão, violência, exploração e mentira”?

Na homília proferida na missa que reuniu milhares de pessoas na esplanada de Saurimo, o Papa disse que, “com efeito, hoje vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza. Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos”.

Leão XIV, que se referiu ao “comércio supersticioso, no qual Deus se torna um ídolo que se procura apenas quando nos serve e enquanto nos serve”, salientou que Cristo “não rejeita esta procura insincera, mas incentiva a sua conversão”.

“Não manda embora a multidão, mas convida todos a examinar o que palpita no nosso coração. Cristo chama-nos à liberdade: não quer servos nem clientes, mas procura irmãos e irmãs a quem se dedicar com todo o seu ser. Para corresponder com fé a este amor, não basta ouvir falar de Jesus: é preciso acolher o sentido das suas palavras. Nem basta sequer ver o que Jesus faz: é preciso seguir e imitar a sua iniciativa”, apelou.

A Igreja Católica angolana tem manifestado a sua preocupação com o crescimento de rituais associados a superstições, questão muito presente no Leste de Angola, região onde a evangelização cristã foi mais tardia e que literalmente esquecida pelo MPLA que, por sinal, está no Poder há 50 anos.

“Até os mais belos dons do Senhor, que cuida sempre do seu povo, se tornam então uma exigência, um prémio ou uma chantagem, e são mal compreendidos precisamente por quem os recebe. O relato evangélico faz-nos, portanto, compreender que existem motivos errados para procurar Cristo, sobretudo quando é considerado um guru ou um amuleto da sorte”, advertiu.

O Papa citou o Evangelho — “Vós procurais-me, não por terdes visto sinais miraculosos, mas porque comestes dos pães e vos saciastes” — para afirmar que Cristo pergunta se é procurado “por gratidão ou por interesse, por cálculo ou por amor”.

Falando em português, Leão XIV afirmou que o que o trouxe até aqui, para estar com a população de Saurimo, foi a “Boa Nova, o Evangelho que corre como sangue nas veias”.

“Não viemos ao mundo para morrer. Não nascemos para nos tornarmos escravos nem da corrupção da carne, nem da corrupção da alma: toda a forma de opressão, violência, exploração e mentira nega a ressurreição de Cristo, dom supremo da nossa liberdade. Na verdade, esta libertação do mal e da morte não acontece apenas no fim dos tempos, mas na história de todos os dias”, declarou.

A celebração da missa foi o último acto do Papa em Saurimo, tendo depois visitado o Centro de Idosos em Muanguene e visitado a Sé Catedral da capital da Lunda Sul.

Leão XIV foi o único dos três Papas que visitaram Angola — João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009 — a deslocar-se à zona Leste do país, aquela que teve uma evangelização mais tardia e onde o catolicismo tem menor impacto junto da população.

A igreja tem denunciado as gritantes desigualdades, numa região rica em recursos, sobretudo diamantes, e marcada por elevadas taxas de desemprego, pobreza, fome e analfabetismo.

No lar de idosos, Leão XIV recebeu uma estatueta do Pensador — Samanhonga, que, em chokwe significa “Pensamento do Coração”, a mesma imagem que estava nas camisolas das mulheres que o aguardavam no aeroporto e que integram o coro que entoou os cânticos durante a missa.

Vestidas com panos africanos alusivos à Igreja Católica em Angola, têm inscritas na t-shirt a expressão chokwé que significa Bem-Vindo a Saurimo — Tambwokeno Um Saurimo — a imagem de Mwana Po (mulher jovem) e os tradicionais batuques chokwe, que, lamentaram, ficaram de fora da celebração.

Numa cidade que não se enfeitou para receber o Papa, a festa aconteceu no recinto onde se realizou a missa, com milhares de pessoas, protegidas do sol por chapéus de chuva, saudaram efusivamente Leão XIV, que percorreu o recinto no papamóvel.

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